O dia em que perdemos Mandela

Teresa Brito

Chegou o dia em que perdemos Mandela, o herói da luta contra o apartheid.

 

Nelson Mandela morreu a noite passada com 95 anos, na sua casa em Joanesburgo, ‘em paz’ e ‘rodeado da família próxima, segundo foi revelado à imprensa pela Presidência da República da África do Sul. Apesar de ser uma perda trágica, a morte de Mandela era já esperada há vários meses, pois o líder sul-africano sofria já de uma infeção pulmonar que se tinha vindo a prolongar, razão pela qual esteve três meses internado no hospital antes de ter tido alta para passar os seus meses finais em casa.

Mandela nasceu a 18 de Julho de 1918, em Mveso, Transkei, África do Sul. Nascido numa família de nobreza tribal, numa pequena aldeia do interior, onde possivelmente viria a ocupar cargo de chefia, abandonou este destino aos 23 anos ao seguir para a capital Joanesburgo e iniciar a sua atuação política. Passando do interior rural para uma vida rebelde na faculdade, transformou-se num jovem advogado na capital e líder da resistência não-violenta da juventude em luta, acabando como réu num infame julgamento por traição. Foi foragido da polícia e o prisioneiro mais famoso do mundo, após o qual veio a tornar-se o político mais galardoado em vida, tornando-se responsável pela refundação do seu país, em moldes de aceitar uma sociedade multiétnica, sendo o principal impulsionador da luta contra o apartheid na Africa do Sul.

Foi criticado muitas vezes por ser um pouco egocêntrico e pelo seu governo ter sido amigo de ditadores, mas a figura do ser humano que enfrentou dramas pessoais e permaneceu fiel ao dever de conduzir o seu país suprimiu todos os aspetos negativos.O dia em que perdemos Mandela

No ano de 1944, Mandela casou-se com Evelyn Mase. Com ela viria a ter quatro filhos: uma menina chamada Makaziwe, morta aos nove meses de idade, outra, que também recebeu o mesmo nome, apelidada de Maki, e dois rapazes: Madiba Thembekile (Thembi) e Makgatho (Kgatho). Esta união duraria 12 anos e terminaria de forma bastante traumática para as duas famílias, pois a sua casa seria invadida pela polícia, revistando-a por 45 minutos e apreendendo papéis. O líder era, então, levado preso, na frente da mulher e dos filhos. No mesmo dia, outras 144 pessoas eram detidas.

Posteriormente, já divorciado, conhece Winifred Zanyiwe Madikizela, ou Winnie, como ficou conhecida, e, já com Mandela em pleno julgamento, resolvem casar-se em 1958. Poucos dias depois da união, Mandela entrou para a clandestinidade e via a esposa em encontros furtivos, que precisavam ser planeados com antecedência, mantendo a máxima segurança e, mesmo assim, desta união nascem Zinzi e Zenani.

Durante este período resolve iniciar um périplo internacional, passando por locais como Londres, Adis Abeba, Oujda, Egito e Marrocos. Aquando do seu retorno, é detido e os julgamentos e acusações sucedem-se até que em 11 de Junho de 1964 Mandela recebe uma pena de prisão perpétua. É enviado para a prisão da Ilha Robben e lá ocupa a cela com número 466/64, que tem as dimensões reduzidas de 2,5 por 2,1 metros e uma pequena janela de 30 cm. Após esta vieram outras celas e outras prisões, bem como negociações. Até que, finalmente, a 11 de Fevereiro de 1990, Mandela  é solto. Uma multidão aclama-o, ao que, respondendo num gesto de luta, ergue o punho fechado.O dia em que perdemos Mandela

Nos encontros públicos que se realizaram mais tarde, Mandela gritava ‘Amandla!’ (Poder!), ao que a multidão respondia ‘Awethu!’ (Para o povo!); mas os seus discursos não eram mais inflamados, mas sim conciliadores. A eleição de Mandela foi um marco divisório na história do país, que saiu do regime draconiano para a democracia plena, elegendo o primeiro governante negro.O seu governo seria para reconciliar oprimidos e opressores, uns com os outros e consigo mesmos.

Na vida particular, Winnie acabou expondo os seus erros e o casal separara-se de facto, a partir de Abril de 1992,por motivos pessoais’, segundo Mandela declarou na altura. Já durante 1993, e também nos anos seguintes, Mandela cortejava Graça Machel, de modo secreto, pois o seu divórcio somente ocorreria em 1996. Mandela encontrara-se com ela em três ocasiões e ela apresentara-se discreta e educada. Foi somente em Maputo, onde ela foi Ministra da Educação e Cultura por catorze anos, que ele a viu de modo diferente: firme, competente e impositiva.

Em 1993 é agraciado com o Prémio Nobel da Paz. No seu discurso assinalou: ‘O valor deste prémio que dividimos será e deve ser medido pela alegre paz que triunfamos, porque a humanidade comum que une negros e brancos numa só raça humana teria dito a cada um de nós que devemos viver como as crianças do paraíso’.

As eleições ocorrem de 26 a 28 de Abril de 1994 e Mandela torna-se presidente da África do Sul. No meio do mandato finalmente tem fim seu casamento de 38 anos com Winnie, com o divórcio a ser declarado a 20 de Maio de 1996. Foi o fim do casal-símbolo da luta antiapartheid. O relacionamento com Graça Machel, o segredo mais ‘mal guardado’ do país, teve coroamento com o casamento em cerimónia privada no palácio presidencial, após a forte pressão exercida publicamente pelo arcebispo emérito Desmond Tutu. E então dá-se finalmente a união. Pelo facto de ser moçambicana, Machel não teve completa aceitação do povo conservador sul-africano.

A 16 de Junho de 1999 tem fim o seu mandato e Mandela declarou que iria partir para uma tranquila aposentadoria. Mas tanto a saúde como a politica em geral não lhe permitiram o desejado sossego. Quando completou 85 anos, em 2004, Mandela voltou a dizer que se iria aposentar e, precisamente a 6 de Janeiro do ano seguinte, morre o seu segundo filho, Makgatho, com pouco mais de 50 anos, mais uma vítima de Sida na família.O dia em que perdemos Mandela

Em 2011, quando estava em férias na Cidade do Cabo, foi internado para ‘exames de rotina’. Tivera uma infeção respiratória aguda e ficou internado cerca de 48 horas no Milpark, em Joanesburgo, de onde saiu para continuar o tratamento em casa. A sua internação causara grande comoção, forçando o presidente Jacob Zuma, que se encontrava na Suíça, a pronunciar-se, pedindo calma à população.

Em Fevereiro de 2012, nova internação, desta vez por sentir fortes dores abdominais. Mandela voltou a residir em Qunu, sua terra natal, em Julho de 2011 e teve de ser levado a Joanesburgo para exames. Posteriormente, a 8 de Junho de 2013, foi internado em estado grave, novamente devido a uma recaída da infeção pulmonar de que sofria há dois anos e meio, uma consequência dos anos que passou na prisão durante o regime do apartheid.

Hoje o mundo chora a perda de um dos seus maiores e mais históricos líderes. O atual presidente da África do Sul, Jacob Zuma , ordenou que as bandeiras do país fossem de imediato colocadas a meia-haste e que ‘Madiba’, como era conhecido, tenha um funeral com honras de Estado, a que se espera que compareçam figuras políticas e mediáticas de todo o mundo. Mais detalhes sobre as cerimónias fúnebres, que deverão durar mais de 10 dias, deverão ser revelados durante esta sexta-feira.

 

O autor

Related Posts