Início Bem Estar Beijar os filhos na boca: sim ou não?

Beijar os filhos na boca: sim ou não?

110
0
Beijar os filhos na boca: sim ou não?

Será que beijar os filhos nos lábios se trata de um mero ato de demonstração de afeto? Será correto?

 

É verdade que, muitas vezes, os pais não conseguem esconder o amor que sentem pelos seus filhos, não resistindo a agarrá-los, abraçá-los ou beijá-los. Há mesmo quem adote o beijo nos lábios, mas, caso opte por essa prática, tenha consciência de que a criança necessitará de algumas explicações.

Apesar de o beijo nos lábios não implicar qualquer intuito sexual, todos sabemos que se trata de um gesto geralmente percebido como demonstração de carinho entre casais e a criança pode não ter a capacidade de entender que o beijo que os pais lhe dão é diferente. Maria Helena Vilela, educadora sexual e diretora executiva do Instituto Kaplan, afirma que a família deve deixar claro que não se trata de nenhuma demonstração romântica, mas sim de um cumprimento carinhoso. Jéssica Fogaça, psicóloga e educadora, vê o beijo nos lábios entre pais e filhos como uma forma interessante de demonstrar afeto, principalmente com as crianças mais novas, pois são mais suscetíveis ao toque.

Muitos são os pais que brincam, dizendo para os filhos que são seus namorados. Maria Helena alerta para o facto de isso poder confundir a criança, em especial as que já passaram da primeira infância, pois o Complexo de Édipo é, realmente, bastante comum entre os quatro e os cinco anos. É, por isso, fundamental que sejam esclarecidas as relações maternal e paternal e que a postura dos pais não deixe dúvidas relativamente ao significado do beijo, que não possui qualquer implicação romântica.

Jane R. Barreto, pedagoga, salienta que a criança tem tendência para imitar os comportamentos dos adultos, tanto os familiares como os vistos na televisão, o que não significa que a criança compreenda aquilo que imita, devido à sua inocência, característica da infância.

Beijar os filhos na boca: sim ou não?Daniella de Freixo Faria, psicóloga infantil, refere ainda que as crianças habituadas a beijar os pais na boca poderão tentar beijar outras pessoas, pois, se também gostam de outras pessoas, então não lhes faz sentido demonstrarem o seu carinho dessa forma apenas com a família. Daí a importância de reforçar a ideia de que esta não se trata de uma prática social comum.

Escusado será dizer que, para além dos fatores psicológicos envolvidos, o beijo nos lábios requer cuidados de saúde, na medida em que certos tipos de virose (como a herpes ou a gripe) podem ser transmitidas através do beijo. É necessária especial atenção nos bebés, pois ainda não possuem defesas.

Jane R. Barreto afirma que “Adultos não devem beijar crianças na boca, alimentar-se na mesma colher, soprar a comida, ou ainda apanhar a chucha, quando a mesma cair no chão, levando-a à boca, para “tirar as bactérias”, e depois colocar na boca da criança, evitando assim a transmissão de Hpilori, herpes, “sapinhos”, entre outros… eles ainda estão a criar imunidade, não têm a defesa orgânica que os adultos têm. Além da questão saúde, devem permanecer atentos ao seu comportamento, pois se as crianças julgarem que esse hábito familiar é natural, repetirão com todos os adultos com que tiverem contacto. Neste sentido, o diálogo com os seus filhos torna-se fundamental, esclarecendo que essa atitude só deverá ocorrer no seio familiar, pois, com a ingenuidade natural da criança, pode acontecer ela entender que, uma vez que seus pais a beijam na boca, repetir o gesto com outros de seu vínculo.”

Giselle Castro Fernandes, psicopedagoga, avisa que uma criança com dois ou três anos que esteja acostumada a beijar os pais nos lábios, a tomar banho com o sexo oposto adulto ou a dormir na cama do casal tem a possibilidade de desenvolver a erotização precoce de algumas áreas do seu corpo, o que pode privar a criança da infância. Assim sendo, é necessário, caso estes sejam hábitos na família, que sejam conversados, explicados e orientados dentro do entendimento de cada fase, tendo em conta que a noção que a criança tem do corpo é diferente da do adulto. Giselle adianta que “Na família existe o papel do pai e da mãe – que, juntos, formam um casal que dorme junto, que beija na boca! O papel dos filhos é outro. São crianças, e criança não beija na boca, não dorme na cama dos pais, etc. Trata-se de demarcar esses limites de maneira bem clara. De contrário, fica difícil definir o papel do adulto e da criança. Para ela, criança, dar o beijo nos lábios é o mesmo que namorar.”, acrescentando que “Filhinho(a) não é namorado e, portanto, não se beija igual. Beija no rosto, abraça, acaricia, mas nada que se confunda com o carinho ou com o amor do adulto, do casal. Há uma preocupação muito grande (e justa) dos pais, de se atualizarem, de não se distanciarem dos seus filhos, mas isso pode e deve ser feito, sem que se abra mão do seu papel, o papel de pai e de mãe, aqueles que representam o porto seguro aos filhos, aqueles que são “adultos”, que orientam, seguram a barra e que deixam muito bem definida a posição de criança e de adulto na família. Pode-se ter a certeza de que os filhos, no futuro, agradecerão muito aos seus pais que não abriram mão do papel com a função paterna – no sentido literal de força, de limite e da função materna – de cuidado, proteção. Amor entre adultos é diferente do amor pelas crianças, pelos filhos. Portanto, o beijo é também diferente e nem por isso menos carinhoso!”.

De qualquer modo, com o passar do tempo, é natural que a criança comece a recusar os beijos aos pais, sentindo-se embaraçada e, nestes casos, segundo Maria Helena, é importante que a criança não seja forçada e que respeitem a sua decisão. Daniella Faria acrescenta que existem diversas maneiras de demonstrar carinho, como uma palavra amiga ou um simples olhar. A psicóloga adianta ainda que a confusão dos filhos pode tornar-se mais evidente depois do seu primeiro beijo, pois é aí que o beijo na boca passa a ter uma conotação diferente da que conheciam, apesar de terem consciência que existe uma diferença. Jéssica Fogaça revela que o mais importante é que a criança descubra por si qual a forma de demonstrar carinho que a deixa mais à vontade.

 

Fontes:

  • Washington de Sá – “Selinho entre pais e filhos pode confundir a criança”
  • Rachel Cantelli – “A consequência de beijar os filhos na boca”