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Antiinflamatórios e desporto são uma péssima combinação

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A utilização a longo prazo de anti inflamatórios pode afetar a atividade física.

 

Um dos temas mais polémicos durante a prática de exercício físico  é o uso descomedido de anti inflamatórios para combater aquela famosa “dorzinha pós início do exercício”. Contudo, ao fazermos uso dessas substâncias, algumas perguntas surgem como, por exemplo, será que isso vai trazer-me algum benefício ?

Esta polémica está longe de ser encerrada, e  a  situação fica ainda pior quando profissionais da área da saúde orientam os seus pacientes a utilizar este tipo de medicamento quando surgem sintomas de dor, ou mesmo antes de provas mais longas, o que tornou a questão ainda mais complexa.

Os anti inflamatórios são utilizados para diminuir inflamações dos tecidos musculares e combater a dor muscular tardia (DMT) após, por exemplo, uma sessão extensiva de treino. Todavia, dados da literatura mostram que a resposta inflamatória é uma maneira fisiológica do corpo se livrar das células afetadas e iniciar a regeneração do tecido. Com a inibição desta função, o tecido demora mais para regenerar-se.

Dessa forma, parece que a utilização dos anti inflamatórios deve ficar restrita ás fases iniciais do treino quando o corpo ainda não está habituado a cargas dentro do volume ou intensidade.

De maneira geral, de 24 a 72 horas após uma sessão de exercícios, a DMT faz-se presente sendo mais prevalecente em indivíduos sem grande lastro fisiológico ou, ainda, após a mudança dos estímulos de treino.

Tem sido proposto que o processo inflamatório e a formação de edemas musculares após o dano dos tecidos é responsável pelo aparecimento da DMT. Dessa forma, o uso de anti inflamatórios parece ser uma saída lógica para a diminuição das dores.

Os principais agentes anti inflamatórios são representados pelos glicocorticóides e pelos anti inflamatórios não hormonais (ou não esteroides), conhecidos pelas siglas AINH ou AINE, que compõem a classe de medicamentos mais utilizada no mundo. Os AINH’s são assim chamados por não derivarem de compostos hormonais na sua composição.

Existem mais de 50 AINH’s comercializados atualmente, contudo, nenhum deles é verdadeiramente ideal no controlo ou na modificação dos sinais e sintomas da inflamação. Estes medicamentos possuem três tipos principais de efeitos:

1- Efeito anti inflamatório: modificação da reação inflamatória
2- Efeito analgésico: redução da dor
3- Efeito antipirético: redução da febre

 

Como funciona

 

Em geral, todos estes efeitos estão relacionados com a ação primária destes medicamentos, ou seja, a inibição da enzima araquidonato ciclooxigenase (COX), responsável pela produção de substâncias mediadoras dos processos inflamatórios nos tecidos. Existem dois tipos de COX: COX-1 e COX-2, esta última produzida nas células inflamatórias quando estão ativadas.

A ação anti inflamatória dos AINH’s ocorre pela sua inibição da COX-2, e é provável que os seus efeitos indesejáveis decorram, em grande parte, da inibição da COX-1. Novos compostos com ação seletiva apenas sobre a COX-2 já estão a ser comercializados há algum tempo, como, por exemplo, Celebra (celecoxibe), Arcoxia (etoricoxibe) e Vioxx (rofecoxibe), estes dois últimos retirados do mercado pelo fabricante após a determinação da Anvisa, no entanto, esta seletividade é apenas aproximada.

Existem dois anti inflamatórios que são bem conhecidos e muito utilizados pelos corredores: Advil (ibuprofeno) e Flanax (naproxeno sódico). Apesar de serem medicamentos diferentes, atuam no controlo do processo inflamatório e redução da dor pela inibição da síntese de prostaglandinas, como mencionado anteriormente, substâncias que atuam na inflamação. Não existem evidências científicas que mostrem uma absorção adequada destes medicamentos, ou de qualquer outro AINH, durante exercícios físicos, fato que traz dúvidas quanto à eficácia e/ou à vantagem da sua administração nestas circunstâncias.

E como produzem efeitos secundários indesejáveis, deve ser restrita a situações muito específicas e por tempo limitado apenas, não justificando o seu uso para o controle de dores musculares do dia seguinte, como veremos adiante.

Os AINH’s mostram-se particularmente eficazes contra a dor associada à inflamação decorrente de lesão tecidual, visto que diminuem a produção das substâncias que podem sensibilizar os recetores das células. Contudo, são responsáveis por quase 25% das reações adversas a medicamentos notificados em alguns países, como no Reino Unido, e frequentemente figuram nos relatórios de mortes relacionadas ao uso de medicamentos.

 

Efeito Secundário

 

Os efeitos indesejáveis mais comuns dos AINH’s consistem em problemas gastrointestinais (risco três vezes maior comparativamente a não pacientes de AINH’s): azia, diarreia, náuseas, vómitos, gastrite, sangramentos e até perfurações do aparelho digestivo, induzidas principalmente pela inibição da enzima COX-1, responsável pela diminuição da acidez e proteção da cobertura do trato gastrointestinal.

Portanto, ingerir estes medicamentos mesmo com alimentos não protege o paciente dos seus efeitos secundários. As lesões da pele constituem o segundo efeito indesejável mais importante dos AINH’s, seguidas dos problemas renais que estes medicamentos são capazes de provocar, como insuficiência renal aguda, que é reversível com a interrupção da administração do fármaco.

Recentemente, alguns estudos demonstraram um aumento do risco cardiovascular (infarto, hipertensão não controlada) em pacientes que utilizavam AINH’s por um longo período de tempo, fato que determinou o laboratório Merck Sharp & Dohme a retirar do mercado mundial os medicamento Vioxxâ e a apresentação de 120 mg do Arcoxiaâ.

Dessa forma, os anti inflamatórios não hormonais são medicamentos que devem ser utilizados com critérios rigorosos, respeitando sempre a prescrição médica, e indicados em situações particulares e por um tempo curto e pré-determinado de tratamento. Todos os profissionais de saúde devem orientar os seus pacientes ou alunos em relação aos perigos da automedicação, pois ainda pior do que ela é a “autodesmedicação”.

Estudos sobre a eficácia e a disponibilidade para o organismo destes medicamentos quando ingeridos durante exercícios físicos são escassos e inconclusivos, portanto, a prática de ingerir AINH’s antes de provas curtas ou longas não faz sentido fisiológico.

Antiinflamatórios e desporto são uma péssima combinação

As dores musculares próprias de treinos mais intensos ou competições, são causadas por micro lesões nos tecidos conjuntivos que envolvem a musculatura, e a dor faz parte do processo inflamatório de reparação destes tecidos. Não é por acaso que o seu Personal trainer ou orientador lhe induz a realizar um treino regenerativo no dia seguinte às provas. O uso de gelo mostra-se ainda  como um potente agente analgésico e anti inflamatório, sem trazer os efeitos indesejáveis dos AINH’s.

Em suma, o uso continuo e excessivo de anti inflamatórios proporcionam a diminuição do processo de hipertrofia muscular e o uso dos mesmos utilizadas para combater a inflamação dos tecidos, também ocasionam a diminuição da migração de células satélites para o tecido danificado pelo exercício.

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